A minha história com José de Sousa

Nesta edição de “A minha história com José de Sousa”, o PortugalSub não vos traz a história daquela captura ou daquele momento especial, mas sim uma história de saudade. Saudades dos tempos em que a Pesca Submarina era uma verdadeira aventura, José de Sousa, que dispensa quaisquer apresentações, conta-nos como mudou a Pesca Submarina com o passar dos anos.

Se gostarias de partilhar aquele momento especial, aquela captura, ou situação mais caricata, não hesites e envia a tua história para [email protected].

Tenho saudades!

Pela mão do meu pai apaixonei-me pelo mar em idade muito tenra; com ele vi as ondas da Costa da Caparica pela primeira vez e com apenas seis anos descobri o deleite de as «surfar» num pequeno colchão pneumático. Ao arrepio dos outros miúdos que gostavam de chapinhar nas poças de água, eu queria o mar aberto e de preferência com ondas! Mas seria com o meu tio Zé Alberto Andrade e Silva, dois anos mais tarde, que teria o primeiro contacto com o mundo da caça submarina, já lá vão…cinquenta anos! Chiça, como o tempo voa – a vida não passa de uma apneia do tempo!

O pioneirismo do meu tio, equipado com o rigor possível da época, potenciou a minha curiosidade pelo que acontecia debaixo daquele lençol de água. Foi através dele que eu percebi que havia todo um mundo novo para conhecer, para desbravar; eu via-o sair do mar de barbas compridas e arpão em riste, qual reencarnação do Neptuno, e trazia com ele uns peixes que comíamos algumas horas depois. De simples testemunha da «temeridade» do meu tio até aos primeiros passos da exploração do desconhecido foi um ápice. Na verdade, aquilo era demais para eu resistir enquanto testemunha passiva da borda de água. Pouco tempo depois submergia de arma e fato emprestados nas águas acanhadas do porto de abrigo da minha saudosa Sesimbra e apanhava duas sarguetas; estava a anos-luz de imaginar que aqueles dois peixinhos e aquela singela surtida submarina acabariam por escrever a minha vida!

Cinquenta anos depois daquele atrevimento, não consigo quantificar a percentagem de espaço que a caça submarina ocupou na minha vida. Mas sei que em muitos momentos ela ganhou em todas as frentes, mesmo naqueles em que conflituou com os interesses da minha vida familiar!…

Posso ir mais longe e dizer até que estabeleci com a caça submarina uma relação quase simbiótica: com efeito, ela deu-me muitos dos momentos mais felizes da minha vida e eu, através da escrita, terei contribuído para dar alguma coisa à caça submarina, acrescentando valor à sua divulgação numa época em que a produção literária nacional sobre o tema era um quase deserto sariano. É um tributo que venho liquidando em suaves prestações ao longo dos anos, com início ainda na década de setenta e que não me pesou um grama, tal o prazer que me despertou e ainda hoje desperta.

Por tudo isto venho acompanhando a história da caça submarina em Portugal há várias décadas e, se me é permitida a imodéstia, nela encontrei um capitulozinho também para mim, não tanto pelo meu percurso competitivo a que também não dei uma importância maior, mas sobretudo pelo que transmiti, pelo que reproduzi, pelas histórias que contei e pela forma como tudo isto alimentou o percurso da modalidade, fez nascer novos praticantes e permitiu que muitos sonhassem com este mundo maravilhoso, o mundo do silêncio e dos peixes. Se apanhei bons exemplares? Claro que os apanhei, mas prefiro ser recordado não tanto pelos meus troféus debaixo de água, mas pelo que terei contribuído para que as gerações subsequentes pudessem continuar a pescá-los e a serem felizes por isso!

Desde aquele inocente mergulho no porto de abrigo de Sesimbra até hoje, muito mudou. E muito mudou para pior! A começar por Sesimbra!…

Tenho muitas saudades daquele tempo em que fazer caça submarina, e fazer caça submarina em Sesimbra, era uma aventura, era um acto de liberdade. A profusão das áreas marinhas protegidas, os condicionalismos que as caracterizam mais as proibições associadas, muitas delas sem fundamentação científica e apenas «porque sim», retiraram emoção e romantismo à caça submarina. Não advogo, obviamente, uma prática descontrolada, mas a regulação foi longe de mais e é hoje um factor redutor da sua prática e do seu desenvolvimento. Sesimbra significava cinquenta e quatro quilómetros de costa pescável às portas de Lisboa; nesta Sesimbra, onde tudo começou para mim e para tantos outros, hoje não é mais permitida a prática desta nossa actividade. Alguns interesses travestidos de proteccionismo ecológico impuseram-se e, onde podia muito bem ser implementado um modelo de protecção que conformasse usufruto com protecção, escolheu-se o modelo fundamentalista de suposta protecção sem usufruto. Se exceptuarmos os interesses privados que gravitam à volta do parque, todos, mas todos mesmo, perdemos com esta privatização de um mar que devia ser nosso e não de meia-dúzia!…

Por outro lado, não deixa de ser verdade que nestas últimas décadas, enquanto eu, por etapas, fazia a minha volta ao mundo em caça submarina que inspirou o O Mundo a Cem Pés, Portugal ascendia a um lugar de topo no panorama competitivo mundial, ganhando individual e colectivamente tudo o que havia para ganhar. Hoje, podemos afirmar com provas dadas que somos dos melhores do mundo a fazer caça submarina. E se eu contribuí um pouquinho para esta realidade, fazendo hipoteticamente despontar com os meus escritos novos valores para a modalidade, pois bem, sinto-me gratificado por isso e com o sentimento do dever cumprido para com o meu tio Zé Alberto, de quem recebi o testemunho e que hoje, sabe-se lá, anda a fazer caça submarina em sítios deslumbrantes…

O comodismo cultural da comunidade, esse, infelizmente, não se alterou com o passar dos anos. Responsável pela fragilidade na defesa dos ataques que lhe eram dirigidos, permitiu que a caça submarina fosse acusada injustamente em praça pública pela depreciação, que não causou, dos recursos e assumisse as culpas de terceiros. Com três décadas de atraso, o voluntarismo de alguns praticantes acabou por impor-se sobre toda aquela passividade e criou uma associação que, muito só e desacompanhada conseguiu reabilitar a imagem da caça submarina, granjeando para ela o estatuto de modalidade amiga do ambiente. Foi a mudança de um paradigma que marcou uma década de história da actividade, durante a qual foi muito mal tratada pelos poderes político e legislativo.

Nesta minha dialéctica descritiva, dizia eu que a caça submarina perdeu algum romantismo. É verdade! Que me perdoe esta nova geração mas tenho saudades de acampar em pleno inverno nos pinhais do Vale da Telha ou na praia da Ilha do Pessegueiro e aí montar o meu quartel-general de fim-de-semana para «atacar» os sargos da região. Os mesmos sargos que comia pouco depois, ao jantar, para recuperar as forças necessárias para voltar à lide no domingo. Tenho saudades dos dias de vento de Leste, do sol de Inverno da Arrifana com águas calmas e frias, dos fundos desassoreados da Carriagem e das laminárias do Castelejo do início de Setembro, dentro das quais caçava os robalos em autênticas surtidas de rapina. Tenho saudades das tertúlias espontâneas e diárias nas instalações da Beuchat no Dafundo, onde se idolatravam as novas espingardas e barbatanas super jetfin, se trocavam técnicas e mentiras de pescador, ao mesmo tempo que se alimentavam tricas e conspirações da treta. Toda a elite se reunia ali sem convocação, todos diziam bem e mal de todos! Tenho saudades das dificuldades impostas pelo débil poder de compra próprio de quem estava em início de vida e tinha de improvisar, improvisar muito, estender ao limite o prazo de validade do equipamento que há muito pedia substituição e até aventurar-se em navegações «quinhentistas» tendo em conta as distâncias percorridas, o estado do mar e a debilidade das embarcações. A caça submarina era, nessa altura e muito mais do que agora, uma actividade para homens de barba rija – oh se era! Mas todos estes handicaps, que fazem parte da sua história, eram compensados pelos cenários de grande abundância subaquática e pelo sucesso das pescarias. Recordo, a este propósito, o dono de um restaurante em São Torpes que nos tratava, a nós, caçadores submarinos dessa época, de «Bravos»!

– Vejam só os sargos bonitos que este bravo apanhou! – Como gostava eu de o ouvir dizer, quase tanto como ele gostava de o repetir. Tenho saudades, porra!

De facto, e sem pretender retirar qualquer mérito à geração actual, facilitada pelo natural avanço tecnológico que produziu novas e melhores embarcações, motores, massificou a utilização das sondas, dos rádios e dos GPS e melhorou de forma muito substancial o equipamento de mergulho tornando-o igualmente muito mais acessível à bolsa de cada um, nós, de uma geração mais antiga, precisávamos de muito mais bravura e espírito de sacrifício para suportar os escolhos de uma modalidade que era muito agressiva e exigente, mas que era uma paixão para nós.

Não sei onde teriam chegado os grandes caçadores de hoje com todas as limitações próprias dos seus companheiros do passado. E também não sei a que níveis teriam chegado esses companheiros do passado se hoje pudessem renascer para a caça submarina dispondo dos equipamentos actuais. É uma comparação que não faço nem pode ser feita. Por isso tiro o chapéu aos mais antigos com uma grande dose de respeito, e assim o mantenho diante desta nova geração que, dispondo de mais tecnologia, é verdade, perde em recursos e liberdade, e herdou um clima mais hostil, em todos os sentidos!…

Windguru há quarenta anos…o que era isso? Era um telefonema na sexta-feira à tarde para o senhor Bráulio da Arrifana! E como era bom ouvi-lo dizer:

– Senhor Sousa, o que é que está aí a fazer? Venha dai home, que o mar está um caldinho!

Tenho saudades!

A equipa do PortugalSub agradece ao José de Sousa por partilhar esta sua saudade com a comunidade de Pesca Submarina Nacional e não só. Esperemos que tenham gostado desta fantástica aventura subaquática e até ao próximo capítulo de “A minha história”.

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